sábado, 7 de março de 2026

7.2 Luto

Na manhã dessa sexta minha tia, irmã de meu pai, fez passagem. Ela, pra mim, tinha/tem um lugar importante em minha vida. A nossa relação, confesso, na maior parte do tempo, foi difícil. No meu primeiro ano de vida morei, juntamente com meus pais, na casa de meus avós e ela morava lá também. Me contam que ela sempre cuidou muito bem de mim nesse primeiro ano e eu sempre tive um amor inexplicável que contrastava com a nossa relação - já mais velha - lembrada por mim. Não sei em que momento passou a ser difícil. E nas brechas dessas barreiras, esse amor permanecia. Meus últimos anos em minha cidade e nos últimos anos dela em vida, de alguma forma, essas brechas deixaram de existir, passando a ser caminho de livre passagem. Talvez por uma escolha de ambas em mudar o rumo do olhar de nossa experiência uma com a outra. Talvez olhando para esse amor e esse cuidado que ainda existia em nossa relação. No dia do velório, um dia após a sua passagem, foi possível observar das pessoas que a tinham como amiga, o olhar de saudade. Aquela saudade feliz, que você tem a certeza de que viveu bons momentos com aquela pessoa em vida, e de como amava/ama e foi amada. E isso foi/é bonito de se observar. Eu não sei..a morte do corpo pra mim não tá em um lugar de comoção e tristeza exacerbada. Tá nesse lugar, que aparecia de vez em quando, dando outro tom aquele choro incosolável do velório. Como as brechas daqueles muros. Hoje me deu vontade de escrever um pouco sobre isso, por ler algo aqui sobre, parafraseando, a dependência que criamos em relação ao dinheiro e a ideia de que precisamos dele para permanecermos vivos. Talvez essa vontade de escrever venha por ter concordado com a frase enquanto uma visão que temos. E logo em seguida, veio a imagem do velório e do processo da tia em relação ao câncer. E perceber que a nossa vida é muito mais que essa estrutura que concordamos continuar vivendo. E que talvez o alimentar dessa ideia - de dependência - mantenha vivo esse sistema e não necessariamente a gente. A minha tia, ao menos o que parece, foi uma pessoa que viveu a vida da forma que escolheu viver. Sem pedir licença e nem desculpas e nem dependeu dessa estrutura capitalista que vivemos. A ideia de comunidade, de celebração, de família - sem necessariamente ser a ‘de sangue’-, daquilo que chamamos de economia sustentável, de pessoa ‘de carne e osso’ é o que observo ao lembrar dela. E era um pouco do que via nas brechas dos olhares e silêncios momentâneos daquele tanto de gente que esteve com ela em vida e que estava ali no velório. E essa imagem é a que decido carregar comigo. Como essa brecha, essa ranhura, esse estilhaço que aponta para a vida, um novo olhar de vida para se ter aqui.