segunda-feira, 25 de maio de 2026

É possível tirar um período sabático executando ainda as atividades necessárias do dia-a-dia?

- O caminho sinuoso do pensamento. Fogo e água ao mesmo tempo. Bifurcações. -
 

Me perguntei esta semana se isso seria possível. Não saberia responder. Fui então pesquisar o que era sabático para ver se era próximo ao que estava buscando. O que mais encontrei foi referente a descanso, a suspensão de atividade regular. Ok. Fui então procurar o que é descansar. E dentre as inúmeras opções, tinha o ‘livrar-se da sensação de fadiga’, ‘acalmar’. Ok. É possível tirar um período sabático estando ainda na rotina de trabalho, cuidados com a casa e companhias..? De forma real? Sem fantasiar? Sem fugir?

Um pouco antes dessa pergunta surgir, percebi que estou/estava em um turbilhão, indo a lugar algum, em meu julgamento. Até que parei e fui tirando alguns excessos da rotina que me faziam cair nesse lugar e junto a isso, a pergunta: quem eu sou sem ‘issaqui’?

[A exemplo desses excessos, algumas redes sociais. E aqui não é colocando a rede social como vilã. O início delas, dentro da minha bolha, era mais para partilhar coisas aqui e ali com conhecidos e amigos, conhecer (conversar) com as pessoas. Passei o início da minha adolescência um pouco nelas. E uma parte, descobrindo sobre mim nelas também (perigoso, eu sei). Porque a realidade fora dali se mostrava perigosa - fisicamente - para como vivo (sim, estou falando de sexualidade e talvez outras coisas, como espiritualidade). Mas hoje..rede social não é mais isso. Não está mais nesse lugar apenas. E aqui também não é fantasiando como antes era melhor e nem nada disso. Só estou observando que o lugar que mudou. Já não é mais tão possível habitar nessas redes. Fui então olhar como era quando habitava lá e a vida física. Percebi que fazia um tempo que parte de mim deixou de habitar a vida física. Talvez por essa construção e medo inicial em achar que não podia habitar. (sim..parece que estou divagando..voltemos) Foi um pouco daí que veio a pergunta: quem eu sou sem ‘issaqui’? ]

Sem esses excessos que me camuflam, que me cansam? O que sobra disso? Sobra algo? E essas perguntas vieram me acompanhando por alguns dias até que: É possível tirar um período sabático executando ainda as atividades necessárias do dia-a-dia?

Me parece até um pouco leviana essa linha (nada reta) de raciocínio. Quando falo sabático, falo em mergulhar nessas perguntas. Viver essas perguntas. ‘Livrar-se da sensação de fadiga’ me parece ser o possível dentro da realidade..por isso a dúvida em relação a possibilidade. Ou talvez a pergunta esteja ‘errada’..

O que percebo, é que se não se vive em uma comunidade - e aqui também não é fantasiando essa escolha de vida, como se não existisse conflito -, existe a possibilidade de mergulhos periódicos (o que no momento não estou podendo fazer) em espaços mais seguros para se viver algo que acredita - ou próximo. Como retiros, grupos religiosos, viagem com pessoas amigas..mas algumas coisas que descobrimos e começamos a construir parece se perder ao sair desses lugares. Pouco depois de voltar da minha última vivência em algum desses lugares (o que já faz bastante tempo), me veio um pouco desse questionamento..se seria possível seguir vivendo essas descobertas. Suspeitava que não ou que seria algo quase hercúleo (pode ser falha em alguma base? pode. pode ser questão de classe? pode. pode ser questão de coragem? também pode..ou outras coisas). Talvez a minha pergunta nem seja se é possível tirar um período sabático e etc., mas se é possível se conhecer, hoje, em meio a essa loucura externa do dia-a-dia, se enraizar e se levar a qualquer lugar sem medo..

Talvez eu esteja querendo muita coisa..



quinta-feira, 14 de maio de 2026

Estou em um impasse.
Escrevo e escrevo e escrevo
para tentar entender.
Ao fundo, um bebê começa a
chorar
E me sinto igual a ele.
Sentindo algo que não sei exatamente
o que é
E isso me angustia.
Ele, chora.
Eu, escrevo.
Ele aprendendo a entender o que lhe causa incômodo pelo corpo.
Eu, pelas palavras.
Dois sobreviventes com idades 
diferentes.
Passando pela dor da descoberta.
Não muito
diferentes.

sábado, 9 de maio de 2026

➿️

Pelas trilhas formadas na grama
Caminhamos - de braços dados.
Como quem passa uma história
a limpo.
Limpando toda dor, todo
sofrimento. 
Caminhando na certeza
incerta
Dos passos vagarosos
Que a vida vai abrindo
revelando
desmanchando.
Desatando e atando
Como uma peça bonita de crochê.

O convite amoroso para caminhar - movimentar.
Essa decisão certa que leva
a uma resposta incerta
Passando vagarosamente
Por esse caminho - desfrutando -
em presença. 



[acho que não precisa destruir algo por não se ter uma resposta. acho que pode ser uma opção anunciar a não resposta e (se) fazer o convite pra caminhar, apreciar, degustar a vida acontecendo]

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Cena no ônibus

A vi ali. Sentada no banco. Como num assalto. Precisei olhar mais uma vez para confirmar o que acabei de presenciar. Estonteante.
Como negar a beleza de uma flor que exala descaradamente seu perfume, sem pedir licença. Apenas ali existindo e aguardando o ponto do ônibus para descer em seu destino.
Posso a admirar? Carrego na mão o peso de um acordo social que me foi passado. Sem perguntarem se queria. Sem me explicar as motivações reais e apresentar outras alternativas. Uma aliança cor de prata, singela. Sendo mostrada enquanto seguro a barra para não cair, enquanto seguimos viagem. Como queria eu cair ali. No meu desejo de saber mais. Mas cai a máscara branca do 'falso moralismo'. Minha pele 'enrubescendo' quando as mãos dela esbarram na minha ao apertar o botão para parar. Paralisei. Por um instante desnorteado. Enquanto me jogava para o sentido oposto daquele lugar que me revelava. Como que fugindo e querendo esconder minha humanidade escancarada ali, atrevidamente por meu corpo. Até que minha ficha cai e percebo que o mesmo destino dela, é o meu. Descemos. Cada um para um lado. O que poderia ter sido? O que foi?

Umidade

Qual o sentido disso tudo aqui? Profundamente? Não enxergo sentido. Talvez ele esteja muito distante do alcance das minhas vistas. Olho, busco e não vejo, não encontro. Ou talvez por não saber, não conhecer não enxergo. Será que já passei por ele? Já olhei de soslaio? Às vezes parece que já o respirei. Como aquela umidade da maresia. Mas quando olho, não vejo. Isso que vejo nos dias não faz sentido algum. Prédios, caixotes com objetos dentro, computadores para resolver (o quê?), vidros com paisagem para olhar nas pausas do trabalho, apertos de mãos, abraços frouxos, agradabilidades, sorrisos amarelos.. estou agora angustiada. Sem um motivo real para isso. Estou preocupada por algo que preciso resolver amanhã que não é um problema real. Criado por essa estrutura maluca que concordamos viver e assim seguimos. Seguimos. Seguimos. Como um trem que perdeu o controle. Acho que, observando até aqui, não tem mesmo sentido. E me torturo querendo encontrar. Aceitar de vez essa estrutura? Não sei se quero. Parcialmente, talvez. Ao menos o que vem de verdade junto com ela. Dos prédios e caixote, os seres. Computadores, as dores e alegrias de alguens. Vidro com paisagens, as vidas. Apertos de mãos, uma história. Abraços frouxos, um coração. Agradabilidades, oportunidade de aprofundamento. Sorrisos amarelos, curiosidade.
Abstrair e brincar como esses gatos em cima de um telhado qualquer.

(passeando por escritas antigas)






sábado, 7 de março de 2026

7.2 Luto

(Mudança de olhar, formas de se viver)

Na manhã dessa sexta minha tia, irmã de meu pai, fez passagem. Ela, pra mim, tinha/tem um lugar importante em minha vida. A nossa relação, confesso, na maior parte do tempo, foi difícil. No meu primeiro ano de vida morei, juntamente com meus pais, na casa de meus avós e ela morava lá também. Me contam que ela sempre cuidou muito bem de mim nesse primeiro ano e eu sempre tive um amor inexplicável que contrastava com a nossa relação - já mais velha - lembrada por mim. Não sei em que momento passou a ser difícil. E nas brechas dessas barreiras, esse amor permanecia. Meus últimos anos em minha cidade e nos últimos anos dela em vida, de alguma forma, essas brechas deixaram de existir, passando a ser caminho de livre passagem. Talvez por uma escolha de ambas em mudar o rumo do olhar de nossa experiência uma com a outra. Talvez olhando para esse amor e esse cuidado que ainda existia em nossa relação. No dia do velório, um dia após a sua passagem, foi possível observar das pessoas que a tinham como amiga, o olhar de saudade. Aquela saudade feliz, que você tem a certeza de que viveu bons momentos com aquela pessoa em vida, e de como amava/ama e foi amada. E isso foi/é bonito de se observar. Eu não sei..a morte do corpo pra mim não tá em um lugar de comoção e tristeza exacerbada. Tá nesse lugar, que aparecia de vez em quando, dando outro tom aquele choro incosolável do velório. Como as brechas daqueles muros. Hoje me deu vontade de escrever um pouco sobre isso, por ler algo aqui sobre, parafraseando, a dependência que criamos em relação ao dinheiro e a ideia de que precisamos dele para permanecermos vivos. Talvez essa vontade de escrever venha por ter concordado com a frase enquanto uma visão que temos. E logo em seguida, veio a imagem do velório e do processo da tia em relação a vida dela (e ao câncer). E perceber que a nossa vida é muito mais que essa estrutura que concordamos continuar vivendo. E que talvez o alimentar dessa ideia - de dependência - mantenha vivo esse sistema e não necessariamente a gente. A minha tia, ao menos o que parece, foi uma pessoa que viveu a vida da forma que escolheu viver. Sem pedir licença e nem desculpas por existir e nem dependeu dessa estrutura capitalista que vivemos. A ideia de comunidade, de celebração, de família - sem necessariamente ser a ‘de sangue’-, daquilo que chamamos de economia sustentável, de pessoa ‘de carne e osso’ é o que observo ao lembrar dela. E era um pouco do que via nas brechas dos olhares e silêncios momentâneos daquele tanto de gente que esteve com ela em vida e que estava ali no velório. E essa imagem é a que decido carregar comigo. Como essa brecha, essa ranhura, esse estilhaço que aponta para a vida, um novo olhar de vida para se ter aqui.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Dobradura

Esquecer e não mais lembrar. 
Fugir pra não mais voltar. 
Dormir e esquecer de acordar. 
Estou começando a pensar como uma covarde!
Tendo dificuldade de encarar os acontecimentos. 
Não quero mais me sentir assim.
Não quero mais me encontrar com você.
Não, eu quero! 
Veja como estou.  
Confusa! 
Na verdade nem sei mais o que quero. 
Esquecer ou lembrar. 
Fugir ou voltar. 
Dormir ou acordar. 
Esses dias têm sido difíceis e com poucas certezas.
Mas sim, sei o que quero. 
Mas o que quero me traz dor, essa que não quero mais que faça parte de mim. 
Quero inteirezas! 
Não quero metades! 
Queria você inteira e presente. 
Não sua metade e sua indiferença. 
Esquecer e não mais lembrar? 
Fugir pra não mais voltar? 
Dormir e esquecer de acordar? 
Não! Minha vida é bem mais que isso!

(passeando por escritas antigas)