quarta-feira, 29 de abril de 2026

Cena no ônibus

A vi ali. Sentada no banco. Como num assalto. Precisei olhar mais uma vez para confirmar o que acabei de presenciar. Estonteante.
Como negar a beleza que exala descaradamente seu perfume, sem pedir licença. Apenas ali existindo e aguardando o ponto do ônibus para descer em seu destino.
Posso a admirar? Carrego na mão o peso de um acordo social que me foi passado. Sem perguntarem se queria. Sem me explicar as motivações reais e apresentar outras alternativas. Uma aliança cor de prata, singela. Sendo mostrada enquanto seguro a barra para não cair, enquanto seguimos viagem. Como queria eu cair ali. No meu desejo de saber mais. Mas cai a máscara branca do 'falso moralismo'. Minha pele 'enrubescendo' quando as mãos dela esbarram na minha ao apertar o botão para parar. Paralisei. Por um instante desnorteado. Enquanto me jogava para o sentido oposto daquele lugar que me revelava. Como que fugindo e querendo esconder minha humanidade escancarada ali, atrevidamente por meu corpo. Até que minha ficha cai e percebo que o mesmo destino dela, é o meu. Descemos. Cada um para um lado. O que poderia ter sido? O que foi?

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