quarta-feira, 29 de abril de 2026

Cena no ônibus

A vi ali. Sentada no banco. Como num assalto. Precisei olhar mais uma vez para confirmar o que acabei de presenciar. Estonteante.
Como negar a beleza que exala descaradamente seu perfume, sem pedir licença. Apenas ali existindo e aguardando o ponto do ônibus para descer em seu destino.
Posso a admirar? Carrego na mão o peso de um acordo social que me foi passado. Sem perguntarem se queria. Sem me explicar as motivações reais e apresentar outras alternativas. Uma aliança cor de prata, singela. Sendo mostrada enquanto seguro a barra para não cair, enquanto seguimos viagem. Como queria eu cair ali. No meu desejo de saber mais. Mas cai a máscara branca do 'falso moralismo'. Minha pele 'enrubescendo' quando as mãos dela esbarram na minha ao apertar o botão para parar. Paralisei. Por um instante desnorteado. Enquanto me jogava para o sentido oposto daquele lugar que me revelava. Como que fugindo e querendo esconder minha humanidade escancarada ali, atrevidamente por meu corpo. Até que minha ficha cai e percebo que o mesmo destino dela, é o meu. Descemos. Cada um para um lado. O que poderia ter sido? O que foi?

Umidade

Qual o sentido disso tudo aqui? Profundamente? Não enxergo sentido. Talvez ele esteja muito distante do alcance das minhas vistas. Olho, busco e não vejo, não encontro. Ou talvez por não saber, não conhecer não enxergo. Será que já passei por ele? Já olhei de soslaio? Às vezes parece que já o respirei. Como aquela umidade da maresia. Mas quando olho, não vejo. Isso que vejo nos dias não faz sentido algum. Prédios, caixotes com objetos dentro, computadores para resolver (o quê?), vidros com paisagem para olhar nas pausas do trabalho, apertos de mãos, abraços frouxos, agradabilidades, sorrisos amarelos.. estou agora angustiada. Sem um motivo real para isso. Estou preocupada por algo que preciso resolver amanhã que não é um problema real. Criado por essa estrutura maluca que concordamos viver e assim seguimos. Seguimos. Seguimos. Como um trem que perdeu o controle. Acho que, observando até aqui, não tem mesmo sentido. E me torturo querendo encontrar. Aceitar de vez essa estrutura? Não sei se quero. Parcialmente, talvez. Ao menos o que vem de verdade junto com ela. Dos prédios e caixote, os seres. Computadores, as dores e alegrias de alguens. Vidro com paisagens, as vidas. Apertos de mãos, uma história. Abraços frouxos, um coração. Agradabilidades, oportunidade de aprofundamento. Sorrisos amarelos, curiosidade.
Abstrair e brincar como esses gatos em cima de um telhado qualquer.

(passeando por escritas antigas)